quinta-feira, 13 de julho de 2023

 

MOMENTO DO CHIMARRÃO

 

Todos sabem que os sul-rio-grandenses têm o hábito e apreço por uma roda de mate, herança dos índios guaranis que habitavam o território do que são hoje a República do Paraguai e o estado do Paraná, e que foi difundida pelos padres jesuítas no tempo das Missões. Contam os historiadores que os indígenas eram famosos por sua vitalidade, força, alegria e hospitalidade, graças ao consumo da infusão dessa espécie de chá, com folhas fragmentadas da erva-mate.

Até hoje, parece que a erva-mate, bem cevada numa cuia de Porongo, continua sendo sinônimo de satisfação, gentileza, acolhida... Um deleite!

E digo mais, muitas discórdias entre outras querelas, são resolvidas numa roda de chimarrão. Parece que o ato de chupar na bomba metálica desse chá verde, vai aquietando os ânimos exaltados. Ninguém grita no momento do chimarrão, as pessoas sentam, geralmente em roda, para dialogar, cantar, trocar ideias, entre outros assuntos vigentes. Enquanto a cuia vai passando parece que algo mágico acontece, e mesmo aquele que esteja meio tresloucado, vai serenando com o passar do mate. E quando se toma o mate sozinho, é instante sagrado de reflexão.

Aqui em casa, tomamos chimarrão todos os dias antes do almoço. E tem uma coisa importante: a cuia deve sempre andar no movimento do laço, ou seja, a volta na roda do mate deverá partir pela direita daquele que serve a cuia. É um momento quase sacro. A gente conversa sobre vários assuntos, fazemos planos, traçamos projetos, que às vezes nem se cumprem, mas o que importa mesmo é que nessa ocasião colocamos os assuntos em dia e idealizamos.

Beber chimarrão tem muitos benefícios para o corpo físico, um deles é a ação vasodilatadora, diminui os lipídios do sangue, reduz os níveis de colesterol, que, por consequência, colabora na prevenção de doenças cardíacas e vasculares. Mas o que me anima mesmo no chimarrão é esse ato de celebração, é o desejar, sonhar que tem uma ligação direta com momentos que estão por vir, como um período de prosperidade, tranquilidade com a vida, harmonia e equilíbrio interior. Beber chimarrão é um ato atávico que estimula nossa mente e ao mesmo tempo alimenta de paz o nosso espírito.

terça-feira, 28 de março de 2023

 

TERAPIA DE SALÃO

 Cheguei às 14h para ser atendida às 14h30. Marisa escovava o cabelo de uma cliente, enquanto Karine fazia a unha de outra. Sentei, e como não tinha revista para ler e eu não levara nenhum livro, fiquei ‘furungando’ no celular e ouvindo as conversas que rolavam no salão.

A cliente falava dos procedimentos estéticos que havia feito nas áreas íntimas, como depilação a laser e colocação de ácido hialurônico na ‘piriquita’. Fiquei atenta, nunca tinha ouvido falar sobre aplicação de tal produto nessa área. A conversa se desenrolava, a cabeleireira contava da colocação de ‘fios’ nas laterais das faces, mas que não resolveu muito para levantar as bochechas e tirar a ‘cara de buldogue’ e o ‘bigode chinês’. Karine levantou-se para ir ao banheiro, parou diante do espelho e se olhou, levantou um pouco a blusa e bateu a palma da mão na barriga: ‘ficou ótimo, pensei que ficaria algum sinal da lipo, mas ficou tudo lisinho’. Entendi que havia feito lipoaspiração abdominal, e o abdômen dela estava mesmo bem definido e bonito. Depois ouvi algo sobre uma cara que encontrou alguém num aplicativo de relacionamento e o fulano se fez passar por um cidadão cheio de boas intenções, contudo, depois de algum tempo, ou melhor, de muito tempo e alertas das amigas, a mulher começou a perceber que ele só estava interessado na grana dela. Nisso a cliente se manifesta: ‘ah, nessas eu não caio, já me pegaram uma vez, mas a segunda não’. A manicure começou a contar sobre o ex, que só queria saber de andar de jet-ski, não pagava a pensão com pontualidade, mas era um bom pai para a filha; que ele tentou várias vezes retomar a relação, mas ela não quis de jeito nenhum, estava ‘enrolada’ com outro cara. Nisso Marisa intervém: ‘mas que tu gostava de trepar com o ex, é fato né?’. ‘Sim’, responde Karine, ‘mas são águas passadas, agora quero alguém que me preencha em tudo, inclusive me sustente, porque o dinheiro que eu ganho é só pra cuidar de mim’. A cliente dispara: ‘tu tá certíssima, homem tem que bancar a mulher mesmo, essa história de dividir contas e contar moedas é fria’.

Eu, calada, não ousei opinar, muito menos falar alguma coisa da minha vida pessoal, pelo menos naquele momento. Porém, me chamou atenção o fato dessa troca de experiências da mulherada, quando se reúnem num salão de beleza. Interagem, desabafam, riem e às vezes até choram.

Chegou minha vez de ser atendida. Marisa puxou a cadeira (divã) para eu sentar e perguntou sorrindo: ‘e tu, mulher, como está’. Resumi minha resposta em poucas palavras: ‘com dor na lombar’. ‘Ihhh, deve ser puro estresse emocional.’. ‘Talvez’. ‘E teu marido?’ ‘Vai bem’...

domingo, 9 de janeiro de 2022

 

O MUNDO DE MAIKON

Todas as manhãs caminho na pista de 200m que tem numa praça perto da minha casa. Tem muitas árvores e uma passarada permanente que sobrevoa de um galho para outro, fazendo ninhos, cantando, criando filhotes. É um alvoroço!

Eu faço vinte voltas, o que resulta em quatro quilômetros. É nesse momento do meu dia que entra o Maikon. Ele é um rapaz com problemas, não sei que tipo de retardo ele tem, nem qual o CID, mas o comportamento dele é incrível. Ele incorpora personagens e vive intensamente no mundo que ele imita. Muitas vezes ele está na praça caminhando também. Quando me vê dá bom dia e começa me acompanhar na caminhada. Incorpora o instrutor da academia que tem próximo dali, onde ele costuma ficar quase o dia todo. Caminhando ao meu lado ele vai corrigindo minha postura, lembrando que tenho que caminhar reta e coloca o dedo no meu abdômen dizendo: ‘postura, postura’. Eu me corrigo e sigo. Ele continua no papel de meu treinador: ‘respira, respira, abdômen contraído’. Pergunto sobre a namorada dele. Ele diz que ela está na academia. Daí comenta que de tarde é instrutor numa academia lá na Protásio Alves, e que vai de bicicleta até lá. Então ele para de caminhar, mas continua ‘me instruindo’. Encostado na barra de ferro onde a gente se alonga, ele permanece com a postura idêntica do treinador da academia. Quando eu termino a caminhada e vou para os abdominais ele continua me corrigindo. De punho fechado, bem como se faz depois da pandemia, ele dá tchau e sai rumo à academia. Noutros dias já vi Maikon com uma roda de direção de veículo que alguém deve ter conseguido para ele, e também um crachá da companhia de ônibus que circula no bairro. Ele diz que é ‘motorista da Carris’. Então desempenha intensamente este outro papel.

Confesso que às vezes sinto inveja do Maikon. Vontade de viver outro personagem, que não fosse eu mesma. Viver, por alguns instantes do dia, a vida de outro, de preferência alguém que admiramos, deve ser uma experiência incrível. Sair da nossa realidade em momentos oportunos, eu acredito que pode nos fazer um bem enorme.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

 

SÓ HOJE

 Hoje fez um lindo dia de sol. O ano está quase no final e a pandemia está sob controle, ao menos aqui no Brasil. Já passamos pelo outubro rosa, indo para o final do novembro azul. A vida passa rápida, enquanto nos jardins e quintais, as flores e plantas têm seu tempo certo de plantio, germinação, colher e florescer. Dentro de mim, o coração bate normalmente, mesmo assim consultei um cardiologista, que ouviu meus sinais e disse que eu não tenho sopro no coração, mas pediu exame ergométrico, entre outros. Talvez clinicamente meu coração esteja são, mas emocionalmente está abalado. Uma saudade bandida me aperta o peito, lembrança de alguém que foi muito importante na minha vida; saudade do que deixei de viver, saudade da época da juventude, tempo em que tudo é muito fácil e se resolve rapidamente na emoção.

Hoje, só hoje, eu queria ter aquele alguém que me abraçasse forte e dissesse: vai ficar tudo bem, eu estou aqui, confie em mim! Estou tão precisada e carente disso. Tem uma música do Djavan que diz mais ou menos assim: ‘sabe lá, o que é não ter e ter que ter pra dar’. Sinto-me assim, hoje, tendo que ter e não ter para dar. E também precisando de alguém que também não tem para me dar. Poderia ser tudo tão mais fácil, mais leve e alegre. Contudo, as picuinhas da vida, vão nos arrastando para um vale de lágrimas, e tudo o que era para ser azul claro, acaba num grande borrão.

Hoje, ‘eu preciso te abraçar, sentir teu cheiro de roupa limpa, pra esquecer os meus anseios e dormir em paz’. Essa música cantada pelo Jota Quest, me define. Preciso da segurança que tu me passava, a certeza de que por trás daquele teu olhar intenso, da gravata vermelha combinando com o terno azul escuro, e do cheiro de Poisson, estava toda a fortaleza que eu preciso para repousar e sossegar meu coração.

Hoje, a incerteza, a insegurança, a instabilidade, estão norteando meus dias e eu sinto uma angústia sem fim. Vai passar, eu sei, mas enquanto não passa, o nó na garganta, o aperto no peito, o pânico, me sobressaltam. Se o tempo não tivesse te roubado da minha vida há tantos anos, se tivéssemos tido a oportunidade de encarnar num tempo único para nós dois, poderíamos ter vivido nosso grande amor. Mas poucas coisas são justas e perfeitas, talvez depois de hoje, outro dia será possível. 

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

 O CÃO E SEU DONO

Sempre que caminho no parque aquele cara está lá passeando com seu cão. Chama-me atenção a sobriedade daquela pessoa, sempre com olhar distante ou baixo, uns quarenta e poucos anos deve ter, cabelos crespos e escuros, pele amorenada, respondendo ao meu ‘bom dia’ em alto e bom som, apenas com um balançar de cabeça. Usa quase sempre a mesma roupa: uma calça jeans preta meio descorada, um blusão caramelo, de lã barata, e por cima uma jaqueta preta, Puff de nylon.

O cão é de porte médio, preto nas costas e parte da cabeça, com barriga e focinho amarelo queimado. O cara segura a guia e o cão o segue, os dois na mesma cadência, sem nada de pressa, como se tivessem a vida inteira só para aquele passeio. Mas a expressão no rosto cheio de vincos precoces mostra que aquele cara sustenta uma longa angústia existencial. Será que tem alguma doença psíquica? Será que não é feliz no casamento, ou nunca casou ou foi abandonado pela esposa ou pelo marido?

Enquanto vou marcando meus quilômetros de caminhada rápida, meu pensamento cogita todas as possibilidades de infortúnios que possam estar penitenciando aquele sujeito. E o mais interessante vocês precisam saber: o cão é a cara do dono, tanto na estética como no semblante.  Anda cabisbaixo, sem demonstrar qualquer reação a nada – nem às pessoas que transitam, nem aos outros animais que também passeiam no local. Eu olho para o cão e para seu companheiro humano e percebo um efeito espelho, uma simbiose resultante da comunhão de espaços e sentimentos. 

Uma coisa é certa: os dois se entendem muito bem e fazem um par perfeito, o que não acontece, na maioria das vezes, entre dois humanos.


 

 

sábado, 3 de julho de 2021

 

O ÚLTIMO RIVOTRIL DA CARTELA

 

Não é de hoje que tenho me sentido estranha. Depois dos cinquenta, tudo foi se modificando aos poucos. Meu sono virou um bloco de fragmentos; o ânimo anda desarranjado e tem dias que não consigo achar graça em nada. A pele do corpo mais ressequida, ossos e músculos mais langorosos e meus cabelos viraram cinza, de cor e de qualidade. No canto dos olhos, no pescoço, as carquilhas do tempo gritam-me lembrando de que ele está passando muito rápido. Celeridade que me causa enorme ansiedade – rimou!

Já dissertei sobre isso em outros textos, mas não me cansa reiterar que a idade me pegou de um jeito ruim. Digamos que me sinto ‘desajeitada’ ou ‘desacomodada’ com ela. E a cada dia que passa não sinto como ‘um dia a mais’, só consigo deduzir que é ‘um dia a menos’.  Não é percepção derrotista, mas uma noção realística.  

Estou consciente que é uma via de mão única, que começa e termina num ponto ‘x’ da estrada.  O tempo que antigamente parecia movimentar-se sem pressa, agora me atropela, pedindo urgências. Quando eu tinha um sono bom e todo  vigor para executar meus ‘mil e um’ ideais, faltavam recursos, oportunidades, orientação... Hoje tenho algum cabedal, maturidade, até diversas ocasiões, mas a time life minguada me causa pânico e imobiliza.

Mesmo me considerando reencarnacionista, meu espírito não é suficientemente evoluído para aceitar de boa a finitude do corpo físico. E confesso que me sinto incomodada com as pessoas que ovacionam a sua terceira idade como se fosse um troféu a ser venerado.  Gostaria muito de ter esta mesma emoção, mas não consigo ter inspiração com isso. Procuro trabalhar e melhorar este sentimento, tenho tido alguns progressos e muita expectativa de que antes de acabar a pandemia da Covid-19, vou me convencer que os melhores anos serão os vindouros. Enquanto isso vou lapidando meu sono com o último rivotril da cartela!  

domingo, 6 de junho de 2021

 

A CAIXA DE LEMBRANÇAS

 

Talvez você não tenha, mas eu e muitos outros temos uma caixa, meio amarelada, amassada, guardada bem escondidinha num armário ou baú, cheia de recordações: cartas de amor, bilhetinhos, cartões postais, de aniversário, fotos, e até telegramas!

Hoje fui procurar uma foto antiga e dei de cara com a minha caixa. Encontrei alguns ‘tesouros’. Mas o que mais mexeu comigo foi um pequeno cartãozinho de felicitações, onde o autor dizia assim: ’ você estará sempre no meu coração, não dá para te esquecer’. E daí, como num filme, passou na minha mente a história que vivi com aquela pessoa. Dos breves, mas intensos momentos que passamos juntos, da alegria que me irrigava a alma quando ele chegava para perto de mim. Um dia ele me trouxe um bichinho de pelúcia: o gato Garfield! Ele sempre sabia do que eu gostava. Ah, meu velho e doce amor!

Assim, fui remexendo aquela caixa de memórias. Encontrei dez cartas escritas à mão, do homem com quem me casei. Mas não ousei ler!

Um telegrama me chamou atenção. Sim, eu tenho guardado telegramas, uma das maiores revoluções tecnológicas do fim do século XIX e início do século XX, hoje é documento que poucos lembram.  Esse telegrama de felicitações diz: ‘princesa, que neste dia a felicidade tome conta de você’.  E devo ter ficado bem feliz mesmo com aquela mensagem de um pretendente querido.

Além de bilhetes, cartões, telegramas, cartas, o melhor, foi ver as fotos da juventude, momentos sozinha, com família, com amores...  Ah, a juventude, onde as horas são mais longas e nem damos tanta importância ao tempo. Lembrei-me então, do final de um poema de Mário Quintana: “Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio. Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.”

E naquela caixa ali na minha frente, com o conteúdo esparramado no chão percebi que nela está a memória de boa parte da casca dourada e inútil das minhas horas.

 

sexta-feira, 19 de março de 2021

 

ESTAMOS EM GUERRA

Gostaria de voltar a escrever sobre amenidades, coisas leves da vida, do cotidiano. Mas está difícil! Não há mais assunto que não aborde o caos que nos envolve. Estamos em estado de alerta, estado de choque. Hoje já não existe mais ninguém que não tenha perdido um conhecido, familiar ou amigo, por esta peste mundial. Aqui no Brasil, estamos no pior momento da crise epidêmica. Na mão de um governo perverso e relapso, o povo sangra!

Olho para todos os lados e não consigo vislumbrar o que me persegue. Não podemos mais encontrar amigos, visitar familiares, não temos mais vida social. Estamos mortificados pelo terror! E eu me sinto desfalecer de ansiedade, acredito que todos estamos nesse nível de estresse emocional. A Ordem a que pertenço, está disponibilizando psicólogos online, gratuitamente, para todos seus filiados, no intuito de aplacar nosso pânico. Nos noticiários, médicos chorando por terem que escolher quem vai ter um leito de UTI e quem vai morrer na espera. O pessoal da saúde que está à frente da trincheira, dizendo que estão ‘enxugando gelo’, porque trabalham, trabalham e ‘a coisa’ só aumenta. Tenho dó desses trabalhadores incansáveis que se desdobram em busca de forças para atender os doentes que chegam em bateladas nas emergências, nas UPAs, nos hospitais...

Estamos todos assustados, temendo um inimigo que não vemos, contra o qual a única arma é a vacina. E esta não chega devido à falta de coordenação pelo Ministério da Saúde que tem sido o entrave para a vacinação no país. Já poderíamos estar com metade da população imunizada. Mas ao invés disso o governo troca de ministro pela quarta vez, seguindo suas inconsequentes manobras políticas.

O que estou escrevendo não fará alguma diferença, mas preciso colocar na tela, no papel, minha angústia e indignação com tudo que isso. Quero apenas demonstrar meu sentimento de vulnerabilidade diante dessa balbúrdia.

E saber que estamos ‘todos no mesmo barco’ não me consola. Eu quero estar é ‘fora deste barco’, bem segura na areia da praia, caminhando com os pés firmes no chão, de mãos dadas com meus afetos, tomando sol e vento nas faces, VACINADA e feliz! 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

 

A COISA

 

No final de 2019, ouviu-se falar de um vírus que estava matando pessoas em Wuhan, na China. Eram cenas assustadoras, muita gente morrendo, principalmente idosos. Lembro que naqueles dias estávamos veraneando e acompanhávamos as notícias que alertavam da gravidade do ‘bicho’.

Parecia tudo tão longe, tão distante, que no princípio nem ‘damos bola’, até que brasileiros que moravam em Wuhan reivindicaram que o governo brasileiro os retirassem de lá. Depois de ajustes diplomáticos, um avião da FAB trouxe os brasileiros que ficaram de quarentena. Até aí, ainda estava ‘tudo bem’, mas logo surgiu um caso de contágio em São Paulo, de uma pessoa que viajara para o exterior.

Não demorou muito para ‘a coisa’ se alastrar e as teorias sobre a origem da doença são várias. Há a hipótese de ser um vírus criado em laboratórios chineses; a teoria conspiratória da criação de uma arma biológica para melhorar economia do país; e uma vacina contra o HIV que não deu certo e ‘escapou’. A grande parte dos cientistas, porém, comentam que o mais provável é que a fórmula do SARS-CoV-2 é muito diferente daquelas vistas em vírus do mesmo grupo. Para eles, o mais provável é que tenha passado por processos de evolução natural, já que existiu uma versão do vírus no passado.   

Eu, particularmente, compartilho com a hipótese de o vírus ter sido criado pelos chineses, uma forma dantesca, desumana, de resolver os problemas econômicos do país e me parece que essa é a ideia de boa parte da nossa população, fora o grupo dos ‘negacionistas’. A verdade é que estamos lutando contra uma doença sem parâmetros.

Por enquanto o que nos resta é continuar com o distanciamento social, usar máscaras, higienizar as mãos, evitar aglomerações, e aguardar ansiosamente pela vacina. Infelizmente, ainda tem um bocado de pessoas que não entenderam o tamanho e a gravidade da ‘coisa’.

Quando essa ‘coisa’ bate à nossa porta, vestida de um manto preto com a foice na mão, é que compreendemos a dimensão e o estrago que ‘a coisa’ faz.

Ver um familiar ou pessoa querida intubada numa UTI é muito triste. Não consigo nem dizer mais nada, apenas cuidem-se e VACINA SIM.  

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

 

CHUVA DE VERÃO

Os dias de janeiro foram quentes, densos. Não é por nada que nossa capital tem o apelido de ‘Forno Alegre’. Eu, particularmente, sofro muito com o calor, agora mais ainda do que quando era mais jovem. Fevereiro entrou trazendo bastante chuva, o que torna a temperatura mais agradável.

Olho pela vidraça e acompanho o ruído da chuva no telhado da varanda, ‘chuá, chuá’. Isso me traz lembranças da infância. Naquela época eu morava no interior. Nossa casa era grande, cheia de vidraças. Lembro dos temporais de verão, quando caía tanto granizo que muitas vezes estilhaçavam as vidraças. Mas era justamente nos dias de chuva que eu me recolhia para ler, gostava das revistas de fotonovelas, e dos livros da coleção ‘Seleções’. Devorava tudo com avidez, e quando minha irmã mais velha, que já morava na cidade, demorava para trazer novas edições, eu acabava repetindo as leituras.

Também eram nesses dias quentes e chuvosos, que todos lá em casa se reuniam na cozinha para comer pipoca com melado e tomar chimarrão.

E quando a chuva forte passava, eu e meu irmão mais novo saíamos para a rua, molhávamos os pés e depois pisávamos nas cinzas do forno de pão. Depois escorregávamos na grama molhada. A cinza em contato com a grama molhada formava uma espécie de ‘escorregador’, e a brincadeira era muito divertida. Muitas vezes levávamos uma sova porque a gente se sujava muito, e naquela época não tínhamos chuveiro elétrico em casa, a gente se lavava na água fria do poço, o que em certas ocasiões acabava em febre e resfriado. E minha mãe já estava um tanto farta de cuidar de filhos convalescentes.

Hoje, simplesmente observo a chuva que traz um armistício no calor do verão. Para mim, dias assim, são também de reflexão, um transporte para o passado, um passeio no futuro.

Gozo o presente com mais sensibilidade, na confiança de que a chuva trará bons augúrios neste início de ano.  

domingo, 22 de novembro de 2020

 

AMIGO É COISA PRA SE GUARDAR

 Quem tem um amigo nunca está só. Um amigo cúmplice, honesto, companheiro, verdadeiro. Aquele que estará ao teu lado no pior momento da tua vida, quando você está no fundo do poço e principalmente sem dinheiro. Já ouvi muitas histórias de pessoas que quando estavam com os bolsos cheios, tinham muitos amigos, depois foram à bancarrota e os amigos todos sumiram.

Você pode ter centenas ou milhares de contatos nas redes sociais, mas por favor, não chame de amigos, são apenas contatos. Amigo mesmo não passam de uma mão de dedos.

O verdadeiro amigo, te ama em qualquer situação e condição. Não te abandona nunca. São escassos, mas especiais. Talvez especiais, justamente por serem escassos.

Eu tenho um amigo especial que me dá orgulho, por quem eu tenho todo o apreço e o maior amor. E uma amiga também! Não vou citar nomes, eles sabem.

Mas essas amizades especiais não invalidam outras, mais superficiais, com quem também trocamos prosa e energia. Eu tenho umas outras duas ou três pessoas, que talvez não me deixassem no relento caso eu carecesse.

 Resolvi escrever sobre amizade hoje, justamente porque precisei do socorro de um amigo, companheiro de longa jornada. E olha que faz tempo que não nos vimos, só por chamada de vídeo de vez em quando. Eu, precisando pedir ajuda, me vi um tanto perdida, desnorteada, este é o termo. Sem saber a quem recorrer, lembrei-me Dele. Não hesitei em pedir socorro. E a mão dele me salvou.

A minha amiga também me socorre sempre que preciso, principalmente falar dos meus dissabores.

Bem disse Milton Nascimento na sua Canção da América: ‘amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração’.

Meu amigo de longa data, de jornadas difíceis e ao mesmo tempo inesquecíveis, te guardo para sempre no meu coração, com muitas chaves, mas onde você sempre terá acesso. Você sabe que é para você que dedico este texto!

sábado, 31 de outubro de 2020

 

PASSAGEM

No vocabulário, passagem é o lugar onde se passa, passadouro. E é nesta condição, de passageiros, que estamos aqui na terra, numa experiência ímpar. Hoje, enquanto fazia minhas vinte voltas na pista da praça, que ao final somam 4km, eu vi um bando de caturritas descer das árvores buscando alimento no chão, decerto minhocas e outros bichinhos deliciosos. Estava abafado e suei bastante. Antes de eu findar meu percurso as caturritas voltaram ao topo das árvores, imagino que satisfeitas. A passarada canta muito e tem um sabiá que todo dia canta uma mesma nota, em quatro tempos: Lá, lá, lá, lá. É eu chegar na praça e já ouço o tom em Lá maior.  Isso me faz lembrar que tenho que treinar no meu teclado.

Depois de uma hora de caminhada, chego em casa e faço alongamentos. Tudo isso demanda tempo e energia. Deitada, alongando, olhei o céu pela janela aberta e lembrei do infinito, do ar, do mar, da nossa passagem pela terra. É tão bom viver, mas não deve ser tão ruim assim morrer. Despir-se do corpo material, e nesse ‘nudismo’ deixar cair por terra todos os problemas que nos afligem; a necessidade de alimentar o corpo, de mantê-lo saudável; a obrigação de trabalhar para nosso sustento; a dificuldade de administrar conflitos familiares e de outras convivências; o dever de evoluir.

Diante dos séculos e milênios da existência humana neste planeta, o tempo da nossa passagem por estas bandas, por mais longo que seja, vira segundos. E ai de nós se não aprendermos cedo aproveitar a ocasião. A hora derradeira chegará para todos. Para alguns de forma trágica, para outros de forma natural, para uns em tenra idade, para outros na velhice. O traspasse é inexorável.

Acabo meus exercícios certa de que o passamento não deve ser algo tão adverso, principalmente quando se tem certeza que do outro lado da passagem, para todos nós, há um plano diferenciado daqui e que se desenrola de acordo com nossas ações.

 E é nesse inquietamento que acabo minha manhã, empenhada em fazer o melhor que posso para quando chegar meu ensejo, eu estar pronta para merecer o bilhete de ida para uma melhor.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

 

ROSÁRIO

Numa tarde de sexta-feira de inverno, recebi em casa aquela mulher. Corpulenta, de cabelos longos, espessos e escuros.  Entre trocas de sorrisos e abraços, convidei-a para sentar. Iniciou seu trabalho de manicure e nesse meio tempo, servi um chá para nós. Enquanto ela tirava os apetrechos do nécessaire, meus pés ficaram de molho na bacia de água morna.

Entre chás e cutículas, foi discorrendo intimidades. Ela me contava, com muito pesar, os descalabros do marido. Conhecera ele há vinte e quatro anos atrás, numa fábrica onde ambos trabalhavam; que se apaixonou logo e um mês depois, cheia de malas, ela se foi ao encontro dele para ficar; que alguns da família dele disseram: ‘filha, você é tão jovem e bonita, fica aqui não, volta para sua casa’. A mãe, a amiga, a vizinha... todas alertaram da aventura em que estava se colocando. Ela não ouviu ninguém, estava obstinada por morar com aquele homem. Logo veio uma filha, e já foi o tempo suficiente para aperceber-se do equívoco consumado. Tentou voltar para a casa dos pais, mas o homem foi atrás e a trouxe de volta. Engravidou do segundo filho, e as exiguidades só aumentaram. Ela ralava no trabalho da casa e o homem na boemia, cachaça, jogo e mulher, costumes próprios daqueles machos ribeirinhos. Vieram outros filhos e mais adversidades. Eram palavras de rebaixamento, maneiras egoístas, joguinhos emocionais... Junto com os anos que passaram, o corpo se transformou, os desgostos se multiplicaram, a autoestima zerou. O sofrimento foi enlutando seu coração e ela sustentava toda a dor daquele relacionamento abusivo. Agora, ‘fazia unhas’ para ter seu dinheirinho, porque ele colocava o pouco que ganhava na farra... e desatou em um choro só!

As lágrimas rolaram no seu rosto, desaguaram entre nossas mãos e desembocaram na bacia que molhava meus pés, e ali se diluíram. Foi um momento de comoção. Eu não sabia direito o que fazer, se confortava, se oferecia um copo d’água, se rezava, ou me aliava àquela tristeza toda e chorava também. Pude perceber o quanto aquela mulher, fisicamente forte, estava quebrada por dentro, frágil, desabrigada da vida e de si.  Amparei com as palavras de apoio que consegui produzir naquele momento doído. Era uma mulher como eu, guerreira, com seus dilemas e penas. Achei melhor parar o trabalho, servir mais chá.  Fiz mais, cortei um pedaço do bolo de milho quentinho que eu recém tinha tirado do forno e coloquei para nós. Mostrei interesse em ouvir, acolher, orientar.

Lá fora, o vento sudoeste soprava da Lagoa, sacolejando as vidraças, sinalizando mudanças. Nós duas, assim ficamos, tarde a dentro, desfiando nosso rosário da paixão, compondo sorrisos e tecendo projetos de liberdade.  

sábado, 26 de setembro de 2020

 

SURPRESA DE ANIVERSÁRIO

 

Naquela manhã de setembro acordei de humor nada bom. Era meu aniversário de cinquenta e sete anos. Estava envelhecendo e o tempo escorrendo como azeite pelas minhas mãos. No meio de uma pandemia, com uma protrusão me incomodando a lombar, fazendo fisioterapia, tendo que tomar hormônios, cálcio, colágeno, vitamina D e outro escambau de remédios, não consegui encontrar muitas razões para estar lépida e faceira. Minha sobrinha havia dito que faria o almoço, já me senti melhor em poder ficar longe da cozinha. Voltei da fisioterapia e fui pegar meu marido no trabalho. Ele perguntou como estava o dia do meu aniversário. Eu respondi com outra pergunta: e o meu presente?  Ele: tu já recebeste muitos presentes. Eu: é por isso que os casamentos acabam e depois não se sabe o porquê.

Entramos em casa e minha sobrinha já estava com uma moqueca de tilápia prontinha, exalando um cheiro gostoso na minha cozinha. Amei ela naquele momento e odiei meu marido porque ele é quem deveria estar na cozinha no dia do meu aniversário. Mas isso era exigir demais dele que não tem aptidões culinárias. Sempre tive inveja de mulheres cujos maridos são verdadeiros ‘mestre cuca’. Porém nada é perfeito e ele tem muitas outras habilidades e qualidades.  

Eu tinha feito um bolinho de milho e convidado apenas a Vivi, minha amiga e vizinha para tomar um cafezinho comigo depois das 14h. Meu marido almoçou e saiu logo, apressado, minha sobrinha também parecia preocupada e enquanto eu lavava a louça do almoço ela começou a arrumar a mesa para o café. Pegou as melhores louças e colocou quatro jogos na mesa. Não entendi, porque era só eu, ela e Vivi. Ela disse: o Ale (marido) também vai vir. Estranhei porque ele nunca vinha tomar café quando eu estava com alguma amiga em casa.

Nisso toca a campainha, minha amiga tinha chegado. Ela me abraçou e me deu um conjunto de sombra para os olhos, bem como eu precisava. Nisso minha sobrinha entra em casa com uma Pavlova linda (é um bolo feito só com claras de ovos e cobertos com frutas vermelhas – delícia). E nesse mesmo instante meu marido chega com um pacote enorme nas mãos e um buquê de flores. Só então me dei conta que estava tendo uma surpresa de aniversário. Ganhei dele um teclado, que ele me prometera há tempos, mas eu já nem contava mais com isso.

Sentamos todos na mesa e saboreamos o bolo com café e bela prosa. Assim, o dia dos meus cinquenta e sete anos foi muito mais prazeroso do que eu pensava. Acabei o dia bem feliz, com pessoas que amo, só faltou meu filho, amor maior que mora longe.

Por isso a gente sempre deve ser otimista com a vida e com as pessoas, porque elas podem nos surpreender súbita e docemente, transformando nossos dias para melhor. Obrigada pelo carinho, meus amores!

 

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

 

COMPLETUDE

Particularidade, característica ou condição daquilo que é ou se apresenta de modo completo; perfeito. Isso é completude! Tal definição deve nos fazer lembrar do nosso estado de espírito, do nosso interior e também das circunstâncias. Como nos sentimos hoje? Em relação à vida profissional, amorosa, espiritual...

Eu não hesito em dizer que não me sinto completa. E acredito que boa parte da humanidade também não. Isso parece variar conforme o tempo. Há fases da vida da gente que a completude se apresenta plena (não sei se não estou falando uma cacofonia). O que quero dizer é que a gente passa por várias etapas, e tem períodos que estamos bem, felizes por quase nada. Enquanto em outras fases parece que o chão se abre sobre nossos pés e mergulhamos num buraco negro, num beco sem saída, num poço sem fundo, num caos!

Nos últimos anos tenho passado por momentos que eu mesma tenho dificuldade para definir. Todos meus atos necessitam de um esforço quase sobre humano da minha parte: levantar, começar o dia, ir ao mercado, à feira, ao trabalho que é o mais difícil. A vida social que antes já era escassa, agora zerou total. E eu me sinto mergulhada num grande precipício, pendurada por uma corda elástica, às vezes estou lá embaixo, às vezes a elasticidade me puxa para cima. Não caio, mas também não saio!

Em outros tempos só de ver a amoreira cheia de folhas e frutos na minha janela e os sabiás cantando com a chegada da primavera, já me enchia de uma alegria até boba. Hoje o sentimento é outro, quase neutro. Coloco toda esta apatia na conta da menopausa, que tem me trazido tormentos nunca imaginados.

Não sei se isso acontece com vocês também, meus queridos leitores. Podem abrir seus corações comigo, afinal estamos vivendo um tempo em que abraçar não dá, beijar nem pensar, tudo é feito com distanciamento. Falar sobre nossos sentimentos pode ser uma boa saída terapêutica para nossa angústia e solidão.

Talvez eu esteja discutindo sobre coisas que você não sente, mas um outro se reconhece como eu. Porque não é possível que esta sensação de incompletude só acontece comigo?

O que posso dizer é que tenho me empenhado muito para obter o mínimo de completude nesses dias. Escrever ajuda muito, porém, como dizia um amigo, eu me saboto e não escrevo. Serei teimosa e pessimista com a vida?